Pular navegação

BOLETIM 12 – Educação por meio da experiência: uma reflexão sobre modelos educativos

Foto: Leandro Karai Mirim – Acervo MCI.

Escola Nova foi um movimento pedagógico progressista ocorrido na Europa, no final do séc. XIX, que teve como influência as ideias de John Dewey, Maria Montessori, Ovide Decroly, Adolphe Ferrière, Édouard Claparède e Célestin Freinet. Tal movimento propunha uma prática de ensino baseada no contato com a realidade vivenciada. A Escola Nova pretendia transgredir o formato tradicional do ensino europeu, no qual o professor detinha o saber/poder e os alunos, enfileirados, eram meros receptáculos de informações.

Dessa forma, a Escola Nova abriu as portas das escolas para que atividades cotidianas adentrassem o ambiente escolar, aproximando assim a escola da vida real. A partir desse movimento surgiram diversas correntes pedagógicas que, pensando em possibilitar uma formação integral, valorizam a experiência como eixo da educação, estimulando que as crianças realizassem vivências, deslocamentos físicos e contatos com diferentes materiais. Como exemplo, temos as linhas: Pedagogia Montessoriana (1907/Itália), Pedagogia Waldorf (1919/Alemanha), Pedagogia Construtivista (segunda metade do século XX/Europa). Cabe destacar, aqui, que os modelos educativos explicitados acima têm origem na Europa e estão diretamente relacionados ao ensino formal, no âmbito escolar, e se espalharam pelo mundo difundindo como ideia central a construção de conhecimentos de experiências.

No Brasil (segunda metade do século XX), o filósofo e educador Paulo Freire desenvolve, formaliza e compartilha de suas propostas educacionais em seus livros: Educação como prática da liberdadePedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia, nos quais afirma que ensinar vai além da transmissão de conteúdos teóricos e descolados da vida real. Ele propõe uma educação escolar que se dá por meio de um processo de construção conjunta, no qual professores e estudantes aprendem uns com os outros por meio do diálogo, da valorização dos saberes de cada indivíduo, da reflexão crítica e da troca de experiências.

Já em 2001, numa Conferência realizada em Campinas (SP/BR), o professor espanhol Jorge Larrosa Bondía apresenta a proposta de uma educação baseada no binômio experiência/sentido, ou seja, que a partir de vivências (reais e práticas) possam ser gerados e construídos conhecimentos e saberes teóricos. Essa proposta vai ao encontro dos ideais contidos tanto no movimento Escola Nova quanto na Pedagogia da Autonomia à medida que amplia as abordagens pedagógicas para além do modelo tradicional de aulas expositivas, seguidas de uma lista de exercícios a serem realizados com a finalidade de praticar e absorver os conteúdos apresentados, de maneira mecânica e condicionada.

No entanto, se direcionarmos o nosso olhar às práticas educativas tradicionais dos povos indígenas, notamos que elas sempre abordaram a transmissão de saberes a partir do contato com a realidade e com as experiências vivenciadas: através da escuta, de práticas coletivas e de trocas com os mais velhos. Sendo assim, podemos afirmar que a educação indígena tradicional sempre esteve conectada com a vida real e com as experiências vivenciadas pelos indivíduos.

Foto: Leandro Karai Mirim – Acervo MCI.

Tal processo educativo está profundamente ligado à vida comunitária, ao território, à espiritualidade e à relação de escuta da natureza. Por meio da oralidade, da observação e da participação nas atividades cotidianas, os povos indígenas preservam sua identidade cultural e garantem a continuidade de seus saberes ancestrais. Nesse contexto, a aprendizagem ocorre de forma integrada ao cotidiano da comunidade. As crianças aprendem observando os mais velhos, participando das atividades de caça, pesca, agricultura, coleta, artesanato, rituais e celebrações, sempre respeitando os valores coletivos e os conhecimentos ancestrais. Os anciãos desempenham papel fundamental nesse processo, pois são responsáveis pela transmissão de histórias, cosmopercepções, danças, cantos, ensinamentos, normas de convivência, conhecimentos sobre a fauna, a flora e os recursos naturais, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a identidade cultural de cada povo.

“Todo o processo de socialização e passagem de cultura entre gerações dos grupos sociais indígenas era de fato um processo educativo em que: a transmissão oral, a narrativa das tradições ancestrais, a imitação das atividades dos adultos e a prática de brincadeiras e jogos com outras crianças e jovens do mesmo grupo etário, eram as formas principais de incorporação de cada novo membro à comunidade. Nestes grupos sociais indígenas todos os adultos se sentiam responsáveis pelo ensino aos mais jovens, e a aprendizagem se fazia de forma natural, espontânea, sendo desconhecidos os castigos e punições físicas.” (NUNES, 2009, p. 10)

A educação indígena tradicional refere-se aos processos milenares de transmissão de conhecimentos, saberes e valores nas sociedades originárias, bem antes da imposição da escola ocidental e da catequese.

a) em primeiro lugar a presença do jogo como um dos elementos mais importantes da educação indígena. A criança aprende brincando e seu brinquedo é, conforme o sexo, o instrumento de trabalho do seu pai ou da mãe;

b) liberdade das crianças configurada no respeito dos pais por elas;

c) conhecimento da natureza;

d) ritos de iniciação;

e) rituais e linguagem mítica. A participação nos rituais constitui-se fonte importante de educação espiritual. O envolvimento e a socialização se dão, também, por meio da música, do canto, das danças que acontecem nos rituais;

f) formação de personalidade específica: algumas pessoas da aldeia costumeiramente recebem incumbências de liderança: Pajé, lideranças. Essas funções, para serem assumidas, passam por uma formação, um momento intencional de apreensão e construção de conhecimentos e saberes (FELIX, 2007, p. 25-26).

Em síntese, a análise das diferentes concepções de educação evidencia que, embora as pedagogias modernas tenham representado importantes rupturas com o ensino tradicional ao valorizar a experiência, o diálogo e a participação ativa dos estudantes, esses princípios já estavam presentes, há milênios, nos processos educativos dos povos indígenas. Sua educação, fundamentada na coletividade, na oralidade, na observação, na relação com o território e no respeito aos conhecimentos ancestrais, demonstra que aprender sempre esteve vinculado à vida, à cultura e à experiência concreta. Nesse sentido, reconhecer os saberes e as formas próprias de ensinar e aprender dos povos indígenas não significa apenas valorizar sua riqueza e diversidade cultural, mas também ampliar a compreensão sobre as múltiplas possibilidades de educação, reafirmando a importância de práticas pedagógicas que promovam a formação integral, o respeito à diversidade, a autonomia dos sujeitos e a construção de conhecimentos com significado para a vida.



REFERÊNCIAS

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Rev. Bras. Educ., 2002, n.19, p. 20-28. Acessar o link da referência.

FELIX, Cláudio Eduardo. Uma escola para formar guerreiros: professores e professoras indígenas e a educação escolar indígena em Pernambuco. Irecê, BA: Printfox, 2007.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 68. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

MARTINS, Ângela Maria Gusmão Santos. O sentido da educação que vem da experiência: as ideias de John Dewey. Práxis Educacional, v. 3, n. 3, p. 147-163, 2020. Acessar o link da referência.

NUNES, Antonietta d’Aguiar. Educação indígena no Brasil antes da chegada dos europeus. ANPUH – XXV Simpósio Nacional de História. Fortaleza, CE, 2009.

PAGNI, Pedro Angelo; GELAMO, Rodrigo Pelloso (org.). Experiência, educação e contemporaneidade. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica; Marília: Poiesis, 2010. Acessar o link da referência.

Plano Museológico. Acessar o link da referência.

Para ler boletins anteriores, acesse o site do Museu.

BUSCAR

Todos os direitos reservados © Museu das Culturas Indígenas 2023 | Desenvolvido por Inova House 

Integração