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BOLETIM 09 – Objetos que falam: a mediação a partir da cultura material

Artefatos indígenas como recurso pedagógico, apresentados em atividade final do Curso para Professores – Ouvir as Belas Palavras (2024), pelas professoras Elen Alves de Sousa, Maria Aparecida Horácio e Silmara Cardoso.

O patrimônio material humano possui extrema relevância na reconstituição da história da humanidade. Ao se pensar nas sociedades do passado e do presente do continente em que vivemos, a cultura material constitui um instrumento de grande importância, passando a ter um valor político no que concerne ao reconhecimento dos territórios de populações indígenas na contemporaneidade, neste tempo que corre.  

A materialidade atribuída à história dos povos cujos artefatos integram o acervo de instituições tradicionais contribui para o conhecimento dessas culturas e para a compreensão do percurso da humanidade no tempo e no espaço. As técnicas, os materiais, as aplicabilidades e estilos estão imersos em suas respectivas tradições de origem e testemunham outros tempos e cosmopercepções. 

Embora a cultura material dessas constelações de sociedades tenha sua relevância, não podemos nos esquecer que a constituição desses grandes acervos em museus mundo afora possui uma origem e um histórico violento, o que tem sido tema de discussões acadêmicas e reivindicações de repatriação de obras e artefatos, principalmente por parte de povos indígenas e africanos, atravessados por um passado colonial.

Desse modo, os saberes tradicionais aliados às produções acadêmicas nos elucidam quanto a rupturas e continuidades, às distintas temporalidades e às perspectivas históricas, possibilitando a construção de conhecimentos e a qualificação de acervos a partir da cosmopercepção das tradições indígenas.

Artefatos indígenas.

Esse movimento, que se inscreve nos processos de descolonização entre diversos países afetados ante o eurocentrismo empreendido pelo Ocidente, tem rompido com uma política de desapropriação do patrimônio de culturas e povos que foram subalternizados e provocado uma desnaturalização do processo pelo qual as instituições museológicas mantêm seus acervos, desde uma perspectiva crítica decolonial e anticolonial.

O cenário histórico e político contemporâneo também contribui com o nascimento de alianças entre povos, museus e universidades, garantindo a soberania das Nações Indígenas sobre tudo que lhes diz respeito, conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Esse movimento representa não apenas um reconhecimento da violência colonial sobre essas sociedades, como também uma reorientação dos princípios que norteiam os museus, reparação histórica e o respeito às tradições que ainda seguem existindo no mundo.

Essas questões relevantes que perpassam a política indígena e indigenista na contemporaneidade têm reverberado, em alguma medida, na forma como as instituições museais e seus educativos têm elaborado materiais e mediações, especialmente no que concerne ao lugar de fala. A colaboração com comunidades indígenas na produção de materiais didáticos é um exemplo importante de respeito às tradições, contribuindo para a preservação e aperfeiçoamento das técnicas dos antepassados, além de fortalecer economicamente artesãos e artistas. 

No âmbito da educação museal, a materialidade de artefatos/objetos utilizados em ações educativas proporciona inúmeras possibilidades para criação de mediações, pois promovem uma aproximação concreta/material do visitante com diversas tradições, abrindo caminhos para o encontro com outras histórias, culturas e cosmopercepções a partir do patrimônio material.

Artefatos indígenas.

Nesse sentido, o uso de objetos mediadores durante as visitas educativas se mostra como forte aliado no que diz respeito à aproximação de diferentes culturas. Segundo a museóloga Inês Ferreira, os objetos mediadores disponibilizados pelos museus durante as visitas medeiam a relação entre o visitante e as temáticas das exposições. 

“A introdução de objetos mediadores, mesmo em exposições tradicionais, permite abri-las a novas perspectivas e incentivar a participação ativa. Os objetos mediadores potenciam múltiplos modos de visitas, a partir da mesma exposição, que se podem sobrepor e interceptar, aumentando a realidade da exposição e a possibilidade da visita ser biográfica e criativa. Eles personalizam a visita contribuindo para adaptar a exposição à medida de cada um. Podemos concluir que é possível alargar o espaço duma exposição e personalizar a visita com objetos mediadores.” (FERREIRA, 2014)

No contexto do Museu das Culturas Indígenas, a escolha e uso de objetos mediadores servem como portal de passagem para apresentar e aproximar os visitantes a outros modos de vida. A utilização de tal estratégia, somada à mediação realizada por educadores indígenas, promove o protagonismo e a valorização das culturas indígenas. 

Os objetos indígenas são testemunhos das relações que os povos estabelecem com os territórios, trazendo saberes ancestrais que dialogam com o tempo e expressam seus contextos históricos, sociais, culturais e políticos, articulando tais dimensões em materialidades. Assim, a cultura material atualiza as narrativas de continuidades, transformações e lutas. 

É necessário sentir – e sobretudo ouvir – o objeto para captar que os diferentes materiais utilizados em sua construção dizem respeito a disponibilidade do bioma de origem do povo que o construiu ou ainda que os diversos grafismos que o estampam se relacionam com suas cosmopercepções.

Mestres de Saberes e objetos mediadores.

Dessa maneira, os objetos mediadores podem potencializar a visita a partir do momento em que permitem aos mestres de saberes (educadores indígenas) convidar os visitantes a imergir profundamente na cultura que o produziu, articulando a oralidade e a materialidade e as transformando em experiências sensoriais que fortalecem a consciência histórica e cultural dos visitantes sobre os territórios, mas também sobre as diferenças culturais que firmam a característica multiétnica do país. 

Bibliografia 

FERREIRA, Inês. Objetos Mediadores em museus. MIDAS (Online), 4 I 2014, posto online no dia 10 fevereiro 2015, consultado dia 30 maio 2025. URL:htto://jounals.openedition.org/midas/676; DOI: https://doi.org/10.4000/midas.676

GOMES, Alexandre Oliveira. Museus indígenas, mobilizações étnicas e cosmopolíticas da memória: um estudo antropológico. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019.

KRENAK, Ailton. Antes, o mundo não existia. Tempo e história. São Paulo, SP: Companhia das Letras, p. 201-204, 1992.

MARANDINO, Martha (org). Educação em museus: a mediação em foco. São Paulo, SP: Geenf/FEUSP, 2008. 

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte, MG: Letramento, 2017.

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