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BOLETIM 01

DIRETRIZES PARA A IMPLANTAÇÃO DO NÚCLEO DE TRANSFORMAÇÃO E SABERES DO MUSEU DAS CULTURAS INDÍGENAS

Mestre dos Saberes Sonia Ara Mirim em ação educativa com escola. Fonte: Acervo MCI.

O processo da educação sempre existiu entre os povos indígenas: é respeitar o processo de transformação e formação do indivíduo.

Cristine Takuá

Este boletim traz algumas diretrizes para a implantação do Núcleo de Transformação e Saberes (NUTRAS) do Museu das Culturas Indígenas (MCI), a partir do projeto político-museológico construído através de um processo de gestão compartilhada entre o Instituto Maracá, o Conselho Indígena Aty Mirim, a ACAM Portinari (Associação Cultural de Apoio ao Museu Portinari) e a Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico (UPPM), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo. 

O Núcleo de Transformação e Saberes foi formado pela união entre os setores do Educativo e da Formação e é composto por uma supervisora, duas assistentes de formação, uma educadora, três estagiárias indígenas e seis Mestres de Saberes, que são os educadores indígenas indicados pelo Conselho Aty Mirim para atuar diretamente na mediação das ações e exposições. O protagonismo e a legitimidade de suas narrativas é imprescindível para a reformulação de sentidos e diálogos interculturais entre os públicos visitantes e o patrimônio cultural envolvido na temática do Museu. A quebra de estereótipos, preconceitos e posturas opressoras que compõem o cenário de invisibilização e objetificação das culturas indígenas inspira um nome indígena atribuído ao MCI: “Tava”, conceito traduzido pelos Guarani como Casa da Transformação. Este mesmo conceito inspirou o nome dado ao Núcleo.

Considerando que a experiência de visitação leva em conta as finalidades, o tipo e os valores da instituição, assim como a diversidade das necessidades e expectativas de seus visitantes, a equipe de estagiárias indígenas contribuirá para o devido atendimento e organização das visitas dos diversos públicos espontâneos ou de grupos. Sua atuação também apoiará ações de acessibilidade frente a uma programação cultural diversificada, com sistemas de comunicação qualificados para o cumprimento da função social do museu.

O Museu das Culturas Indígenas é uma instituição museológica que promove processos educativos, pesquisas, produções artísticas, intelectuais e tecnológicas dos diversos povos e etnias indígenas, com foco no estado de São Paulo, salvaguardando e fortalecendo seus modos de existência e resistência e contribuindo com a articulação, a produção e a partilha de saberes, histórias e memórias em sua diversidade. A principal estratégia proposta para se desenvolverem, de forma dialógica e participativa, práticas museais e referências teóricas destinadas a tornar o MCI um centro de cultura viva é a constituição de Grupos de Trabalho (GTs) para cada campo de ação programática, compostos por lideranças indígenas, pesquisadores e especialistas que compõem o corpo técnico do museu, gestores públicos e organizações sociais de cultura envolvidas para uma gestão museológica compartilhada sustentável. 

Esse modo de gestão a ser implantado pressupõe um processo constante de elaboração e propõe a quebra de paradigmas tradicionais baseados em mecanismos de decisão impostos de cima para baixo e reconhece o protagonismo dos distintos sujeitos, internos e externos, comprometidos com os processos museais. Nesse sentido, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são requisitos essenciais para a definição, ordenamento e a priorização de objetivos e ações do NUTRAS e deverão orientar a implementação e desenvolvimento de ações formativas de caráter continuado e de processos de avaliação, prevendo as necessidades e redirecionamentos de atitudes e posturas, bem como a revisão periódica de metas e estratégias.

As ações educativas do MCI se baseiam em pressupostos conceituais alinhados a estratégias de comunicação e educação que visam promover a interlocução entre a sociedade e as referências patrimoniais materiais e imateriais dos povos indígenas, de forma a instituir processos de aprendizagem, de produção de conhecimentos e de compreensão da memória individual e coletiva, bem como de suas expressões, enquanto elementos constitutivos da formação de suas identidades.

Tendo em vista as especificidades do MCI, foram definidos objetivos,  desafios e metas norteadores com relação direta entre si. Como objetivo geral, prevemos diretrizes para a implantação do NUTRAS elaboradas a partir de reflexões e debates entre lideranças indígenas, gestores, pesquisadores e especialistas do corpo técnico do MCI sobre as demandas dos públicos visitantes. Por sua vez, estas discussões têm como foco a construção de propostas para a estruturação do Programa Educativo. De modo a desenvolver o objetivo principal, foram definidos outros específicos, dentre eles: formação e integração entre os Mestres de Saberes e demais educadores; discussão e elaboração de uma proposta político-pedagógica; produção de materiais didáticos e atividades pedagógicas e capacitação de professores e coordenadores pedagógicos de escolas públicas e privadas. 

Alguns desses objetivos já estão sendo colocados em prática. Dentre as atividades que têm sido realizadas estão a captação de público escolar; realização de visitas educativas para estudantes de escolas do sistema público e privado; elaboração do Programa Educativo e da Programação para o NUTRAS; estruturação de cursos para professores; planejamento de projetos educativos e programas voltados para pessoas em situação de vulnerabilidade social; implantação de um processo de qualificação continuada do NUTRAS e da equipe técnica do MCI; visitação a instituições museais parceiras; formação de um acervo bibliográfico e audiovisual indígena para consulta interna; capacitação para a construção colaborativa do Programa Educativo e demais anexos técnicos; e planejamento e elaboração de materiais didáticos acerca das exposições inaugurais.

A museologia social tem se fortalecido e ampliado seus espaços no cenário museológico brasileiro atual com movimentos cada vez mais consolidados e evidenciados de representação e autorrepresentação de comunidades e minorias que até então não se sentiam representadas adequadamente. Em consonância com esse movimento, o MCI também tem promovido um diálogo e aproximação de diferentes povos do contexto urbano da capital e de outras cidades do interior e litoral do estado de São Paulo a partir de processos dinâmicos e diferenciados baseados no protagonismo e autonomia indígenas. Nesse sentido, como o trabalho direto com a instituição museal ainda é um fato novo para muitas comunidades indígenas, a ACAM Portinari, contando com a consultoria e parceria do Instituto Maracá, tem buscado efetuar uma gestão que possa ser amparada e permeada pela confiança e credibilidade das diferentes comunidades indígenas envolvidas no processo de implantação do MCI.

Isso posto, a Organização Social reitera que a implantação do MCI e de seus processos de trabalho está ocorrendo de forma a cumprir as metas e compromissos pautados no Plano de Trabalho, com algumas adequações que estão se fazendo necessárias à medida que os indígenas se aproximam, se apropriam e fortalecem o sentimento e o sentido de pertencimento em suas relações com o MCI. Trata-se de um processo inovador de gestão que traz novos desafios a cada dia, a cada passo, e requer responsabilidade, ousadia, empatia, confiança e equilíbrio para o cumprimento das demandas institucionais provenientes das comunidades indígenas e da sociedade civil.

Referência:

Projeto Político Museológico do Museu das Culturas Indígenas

TAKUÁ, Cristine. Cristine Takuá e a criança no território em que habita. Jundiaí, 31 mai. 2020. Facebook: SESC Jundiaí. Disponível em: <https://m.facebook.com/sescjundiai/videos/cristine-taku%C3%A1-e-a-crian%C3%A7a-no-territ%C3%B3rio-em-que-habita/3032211830160054/?refsrc=deprecated&_rdr&_se_imp=0FcF5BsdNCxXwg5uO>. Acesso em: 11/10/2022.

Mestre dos Saberes Sonia Ara Mirim em ação educativa com professores. Fonte: Acervo MCI.
Formação Interna Continuada com Patrícia Rech Monroe. Fonte: Acervo MCI.

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