Formação Museal e reflexões sobre patrimônio, território, acervo e pesquisa
Neste boletim serão apresentadas algumas discussões realizadas junto ao Conselho Aty Mirim sobre o Programa de Acervo e Centro de Pesquisa e Referência (PA-CPR) durante os encontros da “Formação em Museologia Intercultural para Lideranças Indígenas” – projeto do Instituto Maracá em parceria com o Museu das Culturas Indígenas, realizado através do Edital Fomento CultSP (PNAB 36/2024) da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo. O objetivo do projeto é qualificar a equipe para a revisão e atualização do Plano Museológico. Iniciada em junho de 2025, a formação discutiu temáticas relacionadas aos diversos setores do museu: Desenvolvimento Institucional, Educativo, Formação, Programa de Acervo e Centro de Pesquisa e Referência, Programação e Exposições, Comunicação.

No 4º encontro, realizado em dezembro de 2025, foram abordadas as temáticas patrimônio, território e pesquisa para animar as discussões de criação e fundamentação do PA-CPR. Elizangela Baré (Doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da USP) foi convidada a trazer para o Conselho as perspectivas de patrimônio para os povos indígenas do Rio Negro, a partir da experiência de tombamento junto ao Iphan da Cachoeira da Onça (2006) e dos Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (2010). A Cachoeira da Onça é considerado um lugar sagrado para o Povo Baniwa, pois alimenta seu espírito – simboliza o umbigo do mundo, a origem de tudo, o contato direto entre o mundo físico e espiritual. Já a roça representa um conjunto de saberes e práticas de manejo da floresta, protagonizado especialmente por mulheres na transmissão de saberes em relação ao plantio, colheita, produção de alimentos e na confecção dos instrumentos de trabalho como o cesto, o tipiti, o abano. Lugares sagrados, modos de cuidar do corpo, da mente, das plantas, de fazer casas, celebrações são considerados patrimônios para os povos do Rio Negro. Valorizar o patrimônio é uma forma de se empoderar politicamente e culturalmente, diz Elisângela ao Conselho, pois nas perspectivas indígenas não há uma divisão entre natureza e cultura, entre material e imaterial. Segundo ela, o que estrutura o pensamento indígena e suas práticas são as relações interculturais entre humanos e não humanos, é a relação com a própria espiritualidade. Como proposta de atividade desta aula, foi lançada aos grupos de trabalho a pergunta “qual o umbigo do mundo para o seu povo?”. Os grupos conversaram e compartilharam seus pontos de vista em plenária geral, material que será utilizado na elaboração do Plano.
Para discutir a noção de território foi convidado Lucas Almeida, Coordenador Geral do Museu dos Aflitos, localizado no território do Bairro da Liberdade, na cidade de SP, que trouxe as camadas de presença de afrodescendentes, especialmente do final do século XVII, XVIII e XIX na Liberdade, antiga Praça dos Enforcados. Trouxe algumas pinceladas sobre a presença indígena/cabocla nesse contexto, o que deixou o Conselho muito atento e envolvido. Por esse motivo entendemos a importância de convidar Casé Angatu, intelectual do Povo Tupinambá, docente na Universidade Estadual de Santa Cruz (Ilheus/BA), para reforçar esse tópico no encontro seguinte.

No 5º encontro, realizado em fevereiro de 2026, foi dada sequência ao trabalho através das temáticas território, pesquisa e acervo, num entendimento que todos esses temas se retroalimentam: patrimônio, território, acervo, pesquisa. Casé Angatu, apresentou sua pesquisa “Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza (1890-1915)” e desvelou junto ao Conselho Aty Mirim as camadas históricas da presença dos povos indígenas na cidade de São Paulo, a partir dos topônimos que exemplificam os conhecimentos indígenas em relação a qualificação do território, dos ervanários com seus usos e práticas na relação de cuidado com as pessoas e ambientes, do modo de vida das pessoas que vivem em periferias da cidade de São Paulo, que dão continuidade a hábitos indígenas, como o mutirão para fazer casas.
“Pessoas que têm suas ancestralidades ligadas aos Povos Originários forçadas a saírem de suas terras natais. Uma verdadeira Diáspora Indígena, mas que mesmo assim as identidades originárias se fazem presentes nas formas de construírem suas moradias (mutirão, motyrõ, moitará ou potyrom), criarem territórios, alimentação (as várias “casas do norte e nordestina” com suas farinhas, jabá etc), festas (destaque a indígena festa junina), musicalidades (forró, coco, rodas), maneiras de falar, entre outras dimensões”. Angatu, Casé (2025)
Ressaltou a importância do uso do termo diásporas indígenas, para indicar os conflitos e as violências fundiárias características dos deslocamentos forçados e de processos migratórios de povos originários no Brasil. Conforme o Censo do IBGE (2022), 86,7% das cidades do país têm moradores indígenas. Na mesma direção o número de indígenas é maior na cidade e no Estado de São Paulo. Há constatação censitária de que a capital paulista possui a maior diversidade de Povos Originários do país com 194 etnias. Do mesmo modo, o Estado de São Paulo também é o primeiro, com a presença de 271 povos.

Casé chegou pedindo licença em respeito aos que vieram antes, fazendo um apanhado histórico desde Pero Vaz de Caminha até os dias atuais, dando ênfase ao protagonismo de mulheres e lideranças indígenas no fazer histórico, “não temos rancor, mas temos memória”. E encerrou incentivando o Conselho sobre a importância em desenvolver suas próprias pesquisas e amplificar as vozes indígenas, suas histórias e saberes no Estado de São Paulo a partir da oralidade, da música, das fotografias, da pesquisa em acervos institucionais e familiares, das festas, memórias e lutas.
Já Gustavo Caboco, artista visual do Povo Wapichana (RR), apresentou suas experiências dentro e fora de museus e levantou a discussão sobre a presença e a ausência das questões indígenas em instituições culturais a partir de imagens comentadas (fotografias, pinturas e vídeos). Falou sobre as memórias no corpo, saberes e manualidades, memórias que não acabam. Falou sobre a política da memória e do esquecimento. Provocou junto ao Conselho a possibilidade de criar novos documentos, como o fio do algodão, uma pena. Ilustrou a ideia sobre acervo, arquivos e documentos na relação com os territórios indígenas “onde tem acervo indígena, é território”. As fronteiras são vivas, o terreno é fértil, o arquivo é vivo, espaço é relação, diz ele. Que histórias queremos contar? O que queremos ativar para potencializar as relações no museu como espaço educativo intercultural? E nos territórios? – pergunta ao Conselho. O que faz sentido para o Programa de Acervos do Museu das Culturas Indígenas? Segundo ele, é importante revisitar a relação com o tempo e seus significados simbólicos, acordar a memória, para fortalecer a saúde e a auto estima de um povo. Caboco trouxe a imagem de Duwid, o irmão teimoso da história de origem e criação do Povo Wapichana para refletir junto aos grupos de trabalho do Conselho o que fazer e não fazer, o que aceitar e não aceitar, na propositura do Programa de Acervos do Museu das Culturas Indígenas no Plano Museológico.
A formação museal é uma oportunidade para o Conselho refletir e criar caminhos para o Museu das Culturas Indígenas a partir de seus próprios territórios, histórias e patrimônios. A equipe do projeto está em processo de consolidação das discussões realizadas em cada setor para o Plano Museológico.

Fiquem atentos aos próximos passos!
Referências: Aulas proferidas por Elisangela Baré, Casé Angatu, Lucas Almeida e Gustavo Caboco durante a formação museal do Museu das Culturas Indígenas e texto de Casé Angatu escrito especialmente para o MCI “Indianidades Identitárias em São Paulo” (2025).
