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A literatura indígena como objeto mediador e pesquisa museal: criar mundos possíveis

Em novembro de 2025, o Museu das Culturas Indígenas realizou a primeira edição do festival literário de autoria indígena Ayvu Nhevaitim: Encontro das Vozes Indígenas, palavras em pele de papel, com curadoria de Trudruá Dorrico, escritora do Povo Macuxi de Roraima.

A curadoria homenageou a primeira geração de escritoras e escritores indígenas que tiveram suas obras publicadas a partir da década de 1990, entre eles, Eliane Potiguara, Graça Graúna, Cacique Payaya, Mario Dzuruna, Ailton Krenak, Ademario Payaya, Juvenal Payaya, Manoela Tukano, entre outros, personalidades que fortaleceram o movimento indígena no início da década de 1970, ao pautar vozes e expressões de mundos silenciados pelo colonialismo e pela ditadura.

Verenilde Pereira autora homenageada no FLAN, ao lado de Daniel Munduruku, Marcos Terena e Olívio Jekupé.

Para representar essa geração, o festival literário contou com a presença de Daniel Munduruku, Verenilde Pereira, Marcos Terena e Olívio Jakupé que, com sabedoria e excelência, partilharam com o público as histórias de consolidação da literatura indígena no Brasil, assim como suas trajetórias que contribuem para a compreensão da presença indígena na atualidade, através de suas criações artísticas que passaram a ocupar o mercado editorial e trouxeram à tona camadas históricas nas perspectivas e vivências de seus e outros povos.

O Centro de Pesquisa e Referência (CPR) do MCI teve um papel fundamental, junto ao setor de Programação, na produção e organização do festival que envolveu 27 autores indígenas de diferentes gerações, gêneros e regiões do Brasil, assim como a participação de nove editoras e duas livrarias. Foram quatro dias de encontros (ver aqui), na mesma semana em que o Governo Federal anunciou a demarcação, declaração e identificação de 20 terras indígenas no Brasil, entre elas três do Povo Guarani no Estado de São Paulo.

Destaque para a banca de livros dos autores presentes na programação do FLAN, à venda na feira literária.

A feira literária foi um dos destaques das diversas atividades que povoaram o Museu das Culturas Indígenas, entre elas conversas com autores, contação de histórias, poesias, palestras, lançamentos, performances, sarau e apresentação cultural. Um festival que propõe a literatura indígena como dispositivo de alargamento de realidades e subjetividades através de histórias e narrativas contadas em letras, oralidades e tecituras, que convida o público a adentrar outros territórios e formas de conhecer e viver o mundo, que inundam a imaginação de vastidão, paisagens, rios, mares, montanhas e pedras, onde vivem povos, seres visíveis e invisíveis. Literatura que coloca o leitor diante das relações de respeito entre diferentes povos com a terra, de onde tudo vem e para onde tudo volta.

Neste contexto, o CPR teve a oportunidade de ampliar sua coleção bibliográfica, que hoje conta com 270 títulos e mais de 100 autores indígenas. O MCI tem como objetivo compartilhar a coleção com o público, e a equipe do CPR está trabalhando possíveis desdobramentos desse precioso material com outros setores do museu, em ações de pesquisa junto aos setores Educativo, Formação e Programação.

Um exemplo disso são os encontros que estão sendo realizados neste ano entre o CPR e a equipe do Educativo, composta especialmente por jovens indígenas de contexto urbano e aldeado. Os “Mestres de Saberes” são os anfitriões do museu, os que acolhem o público, acompanham e orientam a visitação, tiram dúvidas e constroem narrativas à medida que realizam as visitas mediadas das exposições, a fim de aproximar o público às questões indígenas de maneira respeitosa.

A proposta dos encontros com os educadores, nomeado Com Fiar, é que a literatura indígena se torne objeto mediador, físico e simbólico, para a criação e facilitação de conhecimentos indígenas junto ao público durante a visitação às exposições, além de utilizá-la como ferramenta de pesquisa individual e coletiva aliada às próprias experiências e trajetórias culturais. Tem por objetivo fortalecer a auto confiança do grupo de educadores como protagonistas e precursores de uma experiência educativa museal intercultural a partir do fortalecimento de suas ações e de suas próprias identidades.

Registro de um dos encontros do Com fiar, no início de 2026.

Para dar início a esse percurso de encontros, cada educador indígena escolheu um livro para ler e recontar a história para o próprio grupo. Levantaram seus autores, ilustradores, editoras, contaram o porquê da escolha do livro, porque escolheram o livro, o que mais chamou a atenção. Num segundo momento, cada educador apresentou a história, lendo ou recontando a narrativa à sua maneira para o grupo, e juntos levantaram os temas abordados em cada uma delas. Falou-se em destacar alguns temas apresentados para a criação de roteiros educativos para a mediação educativa. Para finalizar, cada educador refletiu e compartilhou, na roda de conversa, de que forma a história que leu e apresentou ao grupo dialoga com sua própria experiência e trajetória como pessoa indígena.

Os temas levantados pelas narrativas escolhidas, assim como sua reelaboração a partir das trajetórias e experiências dos educadores, serão pontos de partida para a criação de roteiros para mediação das exposições junto ao Educativo e para a pesquisa que cada educador vai desenvolver ao longo do ano. A proposta do CPR é que o grupo de educadores realize, em 2026, uma pesquisa sobre as histórias de origem de seu povo e de suas próprias trajetórias a partir dos temas abordados pela literatura indígena e destacados por eles na coleção bibliográfica de autorias indígenas do Museu das Culturas Indígenas. Uma forma de colocar valores culturais essenciais à serviço da educação e pesquisa museal e criar realidades possíveis para o dia a dia da vida na cidade e no museu, a partir das perspectivas indígenas. Em suma, criar boas narrativas para adiar o fim do mundo.


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